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Polícia detalha participação dos vereadores no esquema
Representantes do legislativo estão temporariamente afastados
Crédito: sspds.ce.gov.br
Jornal do Cariri
23/11 0:00

As investigações que resultaram nos afastamentos de três vereadores de Juazeiro foram feitas com base em escutas telefônicas e no acompanhamento da rotina dos investigados pelos policiais. As ligações telefônicas evidenciaram a participação dos vereadores Beto Primo e Vieira Neto como bicheiros. Também afastado, o presidente da Câmara, Darlan Lobo, não foi apontado como operador do jogo do bicho, mas como principal articulador de um esquema fraudulento. A Delegacia de Combate à Corrupção (Decor) identificou repasses financeiros da Prefeitura e da Câmara de Juazeiro do Norte para empresas de fachada e laranjas participantes da organização que seria encabeçada pelo então presidente do Legislativo juazeirense.

Por meio das interceptações, agentes da Polícia Civil puderam detalhar as ações criminosas que fundamentaram as decisões judiciais, a operação e os afastamentos de vereadores e servidores. Em uma delas, o bicheiro Nilson Júnior lamenta não ter mais um prédio da Prefeitura nos fundos da casa em que mora. Nesse prédio, ele fez um “gato” de energia para a casa dele. “Até central de ar tinha na casa toda”, ele diz, e acrescenta, rindo, que desligava o ar condicionado só à noite. 

O vereador Beto Primo é citado como dono da Banca Alternativa e que tinha uma das maiores estruturas entre as organizações identificadas pela Polícia. O parlamentar administrava a organização com a ajuda de subordinados: dois gerentes, um deles cunhado do vereador; cinco roteiros (uma das funções do jogo do bicho) e três laranjas, uma delas Fernanda de Morais, irmã de Beto Primo. A banca também tinha 100 cambistas. 

A participação do parlamentar como dono da banca fica evidente em uma ligação entre ele e um dos subordinados. Na conversa, eles tratam sobre um atraso na entrega de premiação. “A partir de sábado eu quero esse c**alho pronto 18h45. Tem justificativa não”, ordena Beto Primo. Ainda foi constatada a existência de três lotéricas que seriam pertencentes a Beto Primo e eram usadas para “ocultar e dissimular os valores recebidos através dos jogos”, segundo a Decor. 

Uma banca de jogo do bicho, em Várzea Alegre, era comandada pelo ex-prefeito daquela cidade, Vanderlei Freire. Foram interceptadas ligações entre um laranja e a mãe de um filho do ex-prefeito, que foi identificada como gerente da banca. O homem, que aparenta ser o braço direito de Vanderlei, orienta a mulher sobre como depósitos bancários deveriam ser feitos e para quem seria destinado o produto dos jogos, em valores que variam de R$ 5 mil a mais de R$ 20 mil. Um dos depósitos deveria ser fracionado em valores menores.

Já a participação do vice-presidente da Câmara, Capitão Vieira Neto (PTB), foi comprovada pela Polícia mediante ligações telefônicas entre ele, uma mulher que seria a gerente da banca, e a esposa do vereador. Com esta última, o parlamentar alerta sobre um erro durante a assinatura da carteira profissional de uma empregada do casal, feita por uma empresa com sede em Fortaleza, “possivelmente uma construtora com fraude de assinatura”, segundo a Polícia. “Vai dar uma mrda isso daí, vai dar uma mrda isso daí”, Vieira confidencia para a esposa.

Na decisão judicial que o Jornal do Cariri teve acesso, a Polícia Civil também enfatiza o conhecimento dos próprios operadores do jogo do bicho, de que a atividade é ilegal. Isto fica demonstrado em uma conversa entre dois bicheiros: o vereador Beto Primo, da Banca Alternativa, e Demir, bicheiro da banca Crajubar. "Tá sabendo que Camilo Santana vai fazer outro presídio em Juazeiro?", indaga Beto Primo, para continuar em seguida: "É só pra prender cambista. Vieira disse que os cambistas teus, os meus e os de Nilson Júnior que não fizerem jogo pra ele vai prender tudim. Eu digo “pronto”, porque eu tenho 100 cambistas, Demir tem 300 e Nilson Junior 400. Dá 900. Aí tem que fazer um presídio pra botar 900 porque o Tourão só cabem mil", diz Beto. Os dois riem na ligação. 

Outras bancas de jogo do bicho são identificadas pela operação nas cidades de Juazeiro do Norte, onde as organizações se concentravam, e em Crato, Barbalha e Várzea Alegre. As movimentações financeiras giravam em torno de R$ 5 mil a R$ 120 mil. Este último era o valor que um dos bicheiros tinha guardado em casa.

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