Bets atraem adolescentes e acendem alerta sobre saúde mental
Pesquisa com 1.912 estudantes revela que 49,7% dos alunos do 3º ano já fizeram apostas online
Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil
Joaquim Júnior
14/09/26 15:22

Levantamento da Frente Parlamentar Mista da Educação aponta que um em cada cinco alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio diz já ter feito apostas online, as bets. No 3º ano do ensino médio, a proporção chega a quase metade dos pesquisados (49,7%). No Brasil, o acesso a plataformas de apostas online é proibido por menores de idade. A pesquisa foi feita em parceria com a Equidade.info, uma iniciativa que produz dados para pesquisas, e ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas de todo o país.

Como avalia o psicólogo Héricles Vinícius, as apostas online podem ser especialmente atraentes para adolescentes por características próprias dessa fase, como a busca por novidade e intensidade, a maior sensibilidade à recompensa imediata, a necessidade de pertencimento e reconhecimento dos pares, além da capacidade ainda em formação para avaliar riscos e consequências de longo prazo. O acesso pelo celular, de forma rápida, anônima e aparentemente privada, reduz barreiras para o comportamento.

Héricles destaca, ainda, que a publicidade, os influenciadores e as redes sociais contribuem para normalizar as apostas e associá-las a sucesso, autonomia, masculinidade, pertencimento ou status social. “Esse padrão de recompensa é particularmente potente para manter um comportamento, pois cada aposta conserva a expectativa de que ‘a próxima’ poderá produzir o resultado desejado”, menciona, lembrando que nem todo adolescente que aposta desenvolverá dependência, mas é importante observar sinais como perda de controle, aumento dos valores apostados, ocultação da prática, tentativa de recuperar o dinheiro perdido e prejuízos nos estudos, no sono, nas relações e no bem-estar emocional.

A ilusão de controle, segundo o psicólogo, também pode levar o jovem a interpretar pequenas vitórias como resultado de habilidade, enquanto as perdas são vistas como fruto de um azar momentâneo. Nesse contexto, ele diz que apostar pode assumir funções que incluem uma espécie da regulação emocional, como uma fuga temporária de conflitos e a fantasia de autonomia. A possibilidade de ganhar dinheiro rapidamente pode, ainda, alimentar fantasias de independência, reconhecimento e superação de limitações.

Diante disso, o psicólogo afirma que pais, responsáveis e escolas têm papel fundamental na educação, observação e identificação precoce, e que é importante conversar sobre apostas de forma aberta, sem moralização ou humilhação, buscando compreender o que está sustentando aquele comportamento. A prevenção e o cuidado, então, não devem se limitar a advertências morais sobre “falta de responsabilidade”.

“É mais efetivo trabalhar a alfabetização financeira e digital, questionar as estratégias de persuasão das plataformas, fortalecer a capacidade de tolerar frustração e adiar recompensas, além de oferecer espaços de escuta para os conflitos, afetos e fantasias que podem estar sendo descarregados no ato de apostar. Em adolescentes, a aposta deve ser compreendida simultaneamente como comportamento influenciado pelo ambiente digital e como possível expressão de uma dinâmica subjetiva que merece investigação clínica cuidadosa”, conclui.

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