Jornal do Cariri
Profissionais de saúde relatam rotinas extenuantes
Leia relatos de quem atua no combate ao vírus ou no enfrentamento de sequelas
Foto: Divulgação
Robson Roque
23/03/21 15:46

A pandemia de covid-19 completou um ano na última sexta-feira (19), no Cariri. Ao Jornal do Cariri, profissionais de saúde que atuam no enfrentamento ao coronavírus ou no tratamento de pacientes (inclusive aqueles que se recuperam da doença e combatem sequelas) revelam rotinas extenuantes, o descaso de poderes públicos e o desprezo de parcela considerável da população que insiste em não respeitar as medidas de prevenção à covid-19.

Desde o começo da pandemia, a região do Cariri lamenta as mortes de quatro trabalhadores do setor em um total de 2.294 casos confirmados. Leia os relatos:

Iva Priscyla Capelli Rocha Alencar - coordenadora médica da UTI Covid do Hospital Regional do Cariri

Rotina extremamente cansativa física e psicologicamente. Temos cuidado de pacientes muito graves, que requerem muita atenção. Além disso, precisamos acolher familiares angustiados por notícias, ansiosos pela melhora clínica do seu familiar. Muitas vezes a melhora é lenta e gradual; outras vezes precisamos dar a má notícia da perda. Durante esse ano,acredito que todos nós crescemos em vários aspectos. Nos tornamos mais humanos e sensíveis a dor do próximo, eu acredito que tudo tem um propósito, uma razão de ser, os grandes aprendizados de nossa vida trazem dor, aprendemos pela dor ou pelo amor. Nesse ano pude aprender que ninguém trabalha sozinho, que ninguém é bom tecnicamente o suficiente para não aprender algo novo todos os dias, que temos uma capacidade enorme de adaptação. Pude ver colegas cansados mas empenhados nos cuidados ao doente. Acredito que relaxamos no final do ano com a possibilidade da vacinação chegando, com a redução dos casos, e naturalmente pelo desejo de voltarmos à vida normal.  Estamos lidando com um vírus e sabemos o quanto eles são mutáveis. Temos que correr contra o tempo para alinharmos os cuidados de saúde e conseguirmos tratar o máximo de pessoas possíveis. No mais peço a todos que se protejam que acreditem nessa doença que é rápida, agressiva e mata.

Estefani Gonçalves de Almeida Grangeiro, Enfermeira do Hospital Geral Padre Cícero, em Juazeiro do Norte

A chegada desta doença alterou a rotina de toda a sociedade, incluindo os colaboradores do hospital, onde tivemos que nos adequar às novas medidas de prevenção e controle para evitar a contaminação e continuar prestando uma assistência de qualidade para todos os nossos clientes. Não medimos esforços em busca de ofertar o melhor para nossos beneficiários. Uma das maiores dificuldades que enfrentamos acerca desta doença é o distanciamento dos familiares. Mas é necessário para vencermos a covid-19, assim como devemos seguir as medidas de prevenção. Fico realmente muito emocionada quando um paciente covid-19 se recupera. É um sentimento de vitória, dever cumprido para toda nossa equipe, que acompanhou tudo que o paciente enfrentou. Com o apoio de toda a população, venceremos juntos essa doença.

Rafaela Macêdo, Fisioterapeuta Respiratória e professora universitária

Entristece-me e muitas vezes me sinto desmotivada ao ver o quanto há descaso e desrespeito ao outro quando alguém acha que ignorar o uso da máscara e a necessidade de isolamento social pode ser realizada no momento atual. Não é por falta de informação, todos sabem que o coronavírus está presente e fazendo vítimas diárias. Perdi duas pessoas importantes nessa pandemia e essa perda mexeu muito comigo. Eu acredito que depois disso melhorei a minha atuação, pois senti na pele o resultado negativo dessa doença para a nossa população. Sendo bem realista, mesmo após um ano de pandemia ainda não vejo medidas rígidas sendo adotadas para minimizar o número de contaminados. O Governo do Estado atua com maior eficácia, porém os gestores municipais precisam melhorar as estratégias para controle da doença.

George Severo, médico e diretor técnico Hospital Santo Antônio, em Barbalha

As minhas fases no combate à covid-19 foram bem fluidas e ecléticas, desde assistencial até a parte de gestão, cada uma delas com suas especificidades e dificuldades inerentes. Na parte assistencial a rotina é desgastante porque o cuidado é intensivo, a evolução é rápida. Às vezes os pacientes descompensam muito rápido. Então os ajustes são finos, principalmente da ventilação mecânica. A disfunção orgânica vai se acumulando em muitos pacientes. Então todo o tempo a gente fica 100% vidrado naquele paciente com medo de perder o time. Cada minuto que ele perde é muita coisa. É bem tenso! Acredito que as maiores dificuldades que a gente enfrentam é muito conhecimento divulgado e pouquíssima coisa concreta. Dificuldades de ver muitos pacientes precisando de suporte e, infelizmente, a gente não tem como dar esse suporte. É muita gente adoecendo ao mesmo tempo. O serviço de saúde está lotado e isso dificulta muito, é muito pesado para as equipes.

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