PF investiga desvio de recursos federais para merenda escolar
Apreensão de R$ 400 mil em espécie dá materialidade às investigações
Foto: Polícia Federal - Divulgação
Jornal do Cariri
06/01/26 0:00

A Polícia Federal (PF) em Juazeiro do Norte trouxe à tona um esquema criminoso que pode ter desviado recursos federais que deveriam ser destinados à merenda escolar de diversos municípios cearenses, inclusive no Cariri. Seis cidades da região somam mais de R$ 19,1 milhões em contratos com as empresas investigadas. As apurações indicam uma estrutura profissional, por parte das empresas, para fraudar licitações, desviar e lavar valores do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), abastecido com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). 

No inquérito, a PF cita as prefeituras e os fundos municipais como “remetentes de recursos”, não imputando ilegalidade ao ato de pagamento em si, de modo que as suspeitas recaem sobre a destinação e a posterior movimentação dos valores pelas empresas investigadas.

Principal investigada, a empresa DLA Comercial de Alimentos recebeu R$ 7,1 milhões da Prefeitura do Crato, R$ 3,7 milhões da Prefeitura de de Brejo Santo, R$ 2,4 milhões da Prefeitura de Lavras da Mangabeira, R$ 1,9 milhões da Prefeitura de Juazeiro do Norte e R$ 3 milhões do Fundo Municipal de Educação de Brejo Santo. A Carlos G. A. Dantas recebeu R$ 207 mil da Prefeitura de Barbalha, R$ 182 mil do Fundo de Assistência Social e R$ 142 mil do Fundo Municipal da Saúde, ambos de Juazeiro. À Braserv Servico de Locacao e Terceirizacao Ltda foram pagos R$ 500 mil pela Prefeitura de Várzea Alegre e R$ 101 mil pela Prefeitura de Crato.

O caso é inserido em uma investigação mais ampla, iniciada em 2021, a partir de relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF). A PF identificou movimentações atípicas da empresa DLA Comercial de Alimentos EIRELI, sediada em Iguatu e pertencente a Diego Marcondes Cartaxo Tavares, apontado como principal investigado. 

Segundo a PF, a empresa mantém contratos com diversos municípios cearenses, movimentando recursos públicos e realizando saques sistemáticos em espécie, prática considerada incompatível com a rotina empresarial e indicativa de lavagem de dinheiro. Outras duas empresas e duas pessoas físicas são investigadas: Daniela Silva Andrade, cunhada de Diego e apontada como operadora financeira do grupo criminoso, Carlos Gil Alcantara Dantas, dono de uma empresa com o mesmo nome, e A.M.S Comercial.

O grupo teria movimentado, ao longo do tempo, cerca de R$ 19,1 milhões, utilizando um esquema baseado no provisionamento prévio de valores nas contas bancárias e na retirada do dinheiro por terceiros, estratégia que dificultaria o rastreamento da origem e do destino dos recursos.  “A origem e o destino dos valores estão sendo investigados pela Polícia Federal e se inserem no contexto de repressão contínua a crimes relacionados à lavagem de dinheiro na região do Cariri e no interior do estado do Ceará”, informa o delegado da PF, Marcello Dória.

Prisões em flagrante
Dois homens foram presos após um saque de R$ 400 mil em notas de R$ 50 e R$ 100, em uma agência do Banco do Brasil de Iguatu. Na terça-feira (30), Antônio Filho e Wallis Bernardo entraram juntos na agência bancária: Wallis sacou os R$ 400 mil e saiu da agência com o valor em uma mochila. Eles eram escoltados por dois homens que fugiram, um deles seria policial militar em Iguatu. 

Ao serem abordados, Antônio e Wallis  deram versões contraditórias sobre a origem e o destino do montante e não justificaram o transporte do valor fora do sistema bancário. Enquanto Antônio confessou que sacava dinheiro em espécie para Diego, Wallis disse que os R$ 400 mil seriam para pagar fornecedores da empresa dele, a Comercial de Alimentos WB Ltda. Segundo dados do Portal da Transparência dos Municípios, a WB manteve contratos, em 2025, com seis prefeituras caririenses: Missão Velha, responsável pelo maior faturamento da empresa no período (cerca de R$ 1,1 milhão), além de Abaiara, Antonina do Norte, Crato, Juazeiro do Norte e Tarrafas.

“Não houve explicação razoável para que a movimentação não fosse feita por meios eletrônicos comuns”, afirmou o delegado. O caso segue sob análise da Justiça Federal, e as investigações continuam para identificar outros envolvidos e aprofundar a apuração sobre possíveis fraudes em contratos públicos de merenda escolar.

O que dizem as prefeituras
Por meio da assessoria de imprensa, a Prefeitura do Crato disse que o Município não foi notificado e que, por isso, não teria “como emitir uma nota sem o devido conhecimento da investigação”. A Prefeitura de Juazeiro do Norte disse que tomou conhecimento da investigação pela imprensa e destacou ter contrato administrativo com a empresa, “realizado conforme a legislação vigente”, iniciado em setembro de 2025 e término previsto para março de 2026.

A gestão de Juazeiro garantiu que “os contratos são acompanhados por rotinas permanentes de fiscalização e controle, nos termos da legislação aplicável, com monitoramento da entrega, conformidade dos produtos e regularidade da execução”. A prefeitura juazeirense reforçou, ainda, “que acompanha o andamento das apurações e mantém postura de transparência e colaboração institucional, colocando-se à disposição para prestar esclarecimentos caso seja oficialmente demandada”.

A Prefeitura de Barbalha enfatizou que “mantém controle rígido no que diz respeito aos seus procedimentos de aquisição de insumos, sobretudo no que diz respeito à merenda escolar, contando com o processo de fiscalização desenvolvido pela Controladoria Geral do Município, bem como pelo Conselho de Alimentação Escolar”. A gestão barbalhense, que também não foi notificada, disse que está disponível para prestar esclarecimentos, “pois age pautada pela legalidade e confia nos seus processos de licitação, aquisição e fiscalização”.

A Prefeitura de Brejo Santo informou que o contrato com a empresa terminou no ano passado e que também não foi notificada. “Durante todo o período de vigência contratual, não foi constatada qualquer irregularidade na execução do objeto contratado, tampouco no cumprimento das obrigações legais e contratuais assumidas pela empresa”, diz a gestão.

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