Nóis’Y Vendel cria o rock baiônico ao fundir metal e tradição nordestina
Fusão de rock/metal com ritmos nordestinos chama atenção pela originalidade
Foto: Arquivo pessoal
Joaquim Júnior
05/05/26 13:00

Natural de Fortaleza, Valbert Wendel, artisticamente conhecido como Nóis’Y Vendel, mora no Cariri desde os 12 anos. Ele é o criador do “rock baiônico”, fusão de rock/metal com ritmos nordestinos como baião e xote. A música sempre existiu como uma espécie de rastro na família dele: a avó tocava acordeon antes de casar, e o tio cantava e tocava violão em bares. “De certa forma, acho que essa herança me encontrou depois”, conta, ao dizer que a entrada na música foi meio por acaso. Após chegar ao Cariri, soube por um amigo que a banda onde ele tocava precisava de um vocalista — e aí tudo começou. Atualmente, ele possui dois álbuns, intitulados "A Dead One's Tale" e "Thorns and Thistles", e já se apresentou em vários palcos, atraindo a atenção do público pela originalidade.

“A ideia do rock baiônico nasceu meio naturalmente, a partir do caminho que eu fui fazendo dentro da música”, conta. Ele buscou referências em artistas que conseguiam cantar e tocar simultaneamente. Com o tempo, começou a sentir falta de algo que o aproximasse de suas raízes. “Foi aí que entrei num processo de reconexão com a música nordestina — principalmente o baião e o xote — e passei a enxergar que a força rítmica que eu buscava no rock já existia aqui, de outra forma”, afirma.

No processo, algumas referências foram muito marcantes, e “A Morte do Vaqueiro”, de Luiz Gonzaga, foi a principal. Através dela, o artista desenvolveu o universo de “Lengo Tengo”, música que diz ser quase como um desdobramento dessa obra: “Ela carrega essa relação forte com morte, travessia e espiritualidade dentro da cultura nordestina. Aquilo me virou uma chave, porque eu percebi que o peso que eu buscava no rock também existia ali — só que de forma simbólica, rítmica e cultural.”

Este trabalho se expandiu também para o audiovisual, e o videoclipe de “Lengo Tengo” recebeu o prêmio de Melhor Fotografia no Festival de Cinema Música em Foco 2025. O clipe foi desenvolvido em parceria com Geo Brasil e conta com a atuação de Ranny Ramos, da Nazirê, representando a figura da morte nordestina. Como avalia Vendel, foi uma forma de levar esse mesmo imaginário para a imagem, reforçando essa relação entre música, narrativa e estética dentro do que ele vem construindo.

O palco do Rock Cordel é um dos projetos em que o artista já se apresentou. Foto: Arquivo pessoal

As músicas de Vendel costumam girar em torno de temas existenciais, espirituais e políticos, dentro de uma narrativa mais simbólica. “Eu falo muito sobre morte, poder, manipulação, fé — mas não de forma direta ou panfletária. Prefiro trabalhar isso como histórias, imagens, quase como um cordel sombrio. O tom crítico vem justamente daí. Em vez de apontar o dedo, eu procuro criar cenários onde essas estruturas se revelam sozinhas”, explica.

Para isso, ele se utiliza de personagens, metáforas ou situações que parecem distantes, mas que, no fundo, estão falando do presente. Conduzindo as histórias do rock baiônico, está o Carroceiro Fantasma, uma espécie de alter ego artístico que atua como um mediador entre o que está sendo cantado e quem está assistindo. O interesse pela junção de música e atuação era antigo: desde os tempos em que ouvia The Who, Mutantes e Secos e Molhado.

Cinéfilo, também sempre foi ligado a trilhas sonoras, principalmente de filmes de terror. A figura do Carroceiro Fantasma nasce também sob uma influência direta do filme The Phantom Carriage (1921), além de uma estética puxada pelo expressionismo alemão, que o ajudou a conectar o imaginário mais sombrio com a musicalidade nordestina. “Ele é esse personagem que transita entre vida e morte, conduzindo histórias, memórias e almas.”, enfatiza.

Morador do Cariri, região em que a religiosidade é considera muito forte, ele diz ter sentido certo receio de como o público receberia um trabalho com a estética mais sombria. O que aconteceu foi contrário: o projeto vem sendo abraçado de uma forma que ele não esperava. No percurso musical, ele já se apresentou no Palco Sonoro da Urca, na Expocrato; no Centro Cultural do Cariri; na Mostra Sesc Cariri de Culturas; e no Rock Cordel, em Fortaleza.

“Em todos eles, a reação passa muito por essa curiosidade — o público não rejeita o diferente, ele se aproxima, quer entender, perguntar, se envolver. Isso tem sido muito importante pra mim, porque me dá segurança pra continuar aprofundando essa linguagem”, relata. A próxima apresentação será em Fortaleza, ainda no mês de maio, na Feira da Música, um evento pelo qual está ansioso, já que queria participar há um tempo.

“A arte independente sobrevive muito na base da conexão direta com o público. Quando alguém escuta, compartilha, vai a um show ou acompanha o trabalho de um artista local, isso não é só apoio simbólico — é o que mantém toda uma cadeia viva, desde quem está no palco até quem trabalha nos bastidores. Fortalecer artistas independentes também é fortalecer a cultura da própria região, movimentar a economia local e garantir que essas vozes continuem existindo e evoluindo”, destaca Vendel, ao dizer que tudo aquilo que construiu até o momento veio dessa troca. “Cada pessoa que chega, escuta, se interessa, pergunta… Isso faz diferença real. Então, o convite é esse: se você tiver curiosidade, se permita conhecer. Procura, escuta, chega junto. E se fizer sentido pra você, me acompanha — porque essa carroça ainda tem muita estrada pela frente”, finaliza.

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