Moda e cultura popular se entrelaçam em livro de pesquisadora cratense
Obra reúne entrevistas, fotografias, técnicas releituras e texturas
Foto: Shayná Moura
Joaquim Júnior
03/03/26 17:00

Um livro que combina uma narrativa textual que conduz os leitores, um editorial de moda que conecta as manifestações tradicionais com saberes jovens emergentes, experimentações têxteis que reinterpretam a brincadeira do reisado e ilustrações com informações técnicas de moda – este é “Fios de Reis”, projeto da cratense Shayná Moura e Silva que será lançado no dia 16 de março, no Cassino Sul-Americano, em Crato. A obra parte da relação de afeto com o Reisado São Francisco, do Mestre Dodô, de Juazeiro do Norte, e contou com apoio de equipe composta totalmente por pessoas do Cariri ou que vivem na região há pelo menos dez anos.

Shayná cresceu em uma família profundamente ligada às artes. Uma das tias mais próximas era atriz da Cia. Cearense de Teatro Brincante, dirigida pelo ator e diretor Cacá Araújo, que sempre incorporava elementos da cultura local em suas peças. “Desde criança, ela me levava para acompanhar apresentações e atividades culturais. Meus pais também me incentivaram na arte: ainda na escola primária, fazia aulas de dança e, na adolescência, teatro e circo”, relembra. Desta forma, ela cita que a pesquisa com memória, no âmbito universitário, fez o caminho inverso: nasceu em casa. Com o reisado não foi diferente. “Esse encantamento não tem um marco definido, mas sempre esteve presente, me envolvendo desde cedo”, explica.

As manifestações culturais sempre estiveram presentes na vida de Shayná. O amadurecimento com o passar dos anos foi o responsável pela mudança no olhar sobre as manifestações culturais, que passaram a ser vistas com maior criticidade, ganhando um sentido político e territorial. “Quando entro no curso de Moda desenvolvo um olhar técnico e apurado sobre o que se veste. Junto à minha sensibilidade, essa experiência abriu caminho para uma aproximação mais profunda e direta com o reisado”, cita Shayná, que teve o estalo para a criação da ideia no Ciclo de Reis de 2025, quando estava com um amigo em meio a fitas, cores e espelhos da Praça São Vicente, no Crato, e decidiu: “Vou pesquisar as roupas do reisado.”

Foto: Shayná Moura

Nascimento do projeto

Após visitas iniciais ao Reisado do Mestre Dodó, com quem já possuía certa proximidade, a pesquisadora fortaleceu conexões – foi aos ensaios do coco e do reisado, brincou com eles e apresentou o projeto, buscando saber eles gostariam de participar. Com o consentimento do grupo, ela começou a marcar visitas para conversar sobre o reisado, sobre as roupas e sobre a vida. Nesta etapa foram feitas algumas entrevistas mais direcionadas. “Entrevistei o Jove, sobrinho e brincante do grupo, responsável por confeccionar a maioria das peças, o Mestre Dodô e o Mestre Joãozinho. Nesse meio tempo, mergulhei nas roupas, observando e fotografando cores, aviamentos e tipos de costura. Depois fui para a produção das ilustrações. Já havia decidido focar em um figurino específico, então juntei as peças físicas e algumas fotografias para que o James (ilustrador) pudesse criar”, relata.

Para ela, a parte textual foi um grande desafio, pois a forma principal com que se comunica com o mundo é através das mãos. Foi assim que nasceram algumas experimentações têxteis. “Como já havia fotografado as peças, quis fazer ensaios mais conceituais. O primeiro ensaio foi mais básico, incluindo peças de cada figurino, que no reisado São Francisco são divididos por cores: azul, vermelho, verde, branco e amarelo. O segundo ensaio já tinha uma estética mais editorial, pois várias ideias do livro haviam amadurecido, incluindo o uso das cores”, conta Shayná, que acompanhou o reisado em apresentações e chegou até a viajar com o grupo.

A partir das experiências que ela possui, a pesquisa surgiu como um olhar que traduz os figurinos, as brincadeiras e os brincantes. “Minha maior responsabilidade está no respeito que tenho e na forma como lido com todos que me atravessaram durante o projeto: ser um ouvido atento e sensível a todas as histórias que o Mestre Dodô quis compartilhar, respeitar a casa e o café, as roupas, a família e o tempo”, pontua, ao deixar o convite para que as pessoas deixem de lado o conceito do que é um livro e estejam abertas às experimentações.

O lançamento de Fios de Reis será no dia 16 de março, às 18h, no Cassino Sul-Americano, no Crato, com apresentação do Reisado São Francisco e pocket show de Carla Ribeiro. Aberto ao público e com acessibilidade em Libras, o evento marca também o aniversário da autora.

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