Inquérito aponta violência psicológica e investiga possível induzimento ao suicídio no caso Isabelle Caracristi
22/09/26 17:59

A investigação sobre a morte da estudante de Direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, avançou para uma nova linha, após a análise de mensagens, depoimentos e outros elementos reunidos pela Polícia Civil do Ceará. O que inicialmente foi registrado como uma ocorrência de suicídio passou a ser apurado também sob a possibilidade de instigação, induzimento ou auxílio ao suicídio, com atenção especial à relação da jovem com o namorado, João Munhoz Neto.

De acordo com elementos reunidos no inquérito, a apuração identificou indícios de que Isabelle estaria submetida a um relacionamento marcado por vigilância, controle, pressão emocional, constrangimentos e interferências na vida pessoal e financeira.

As mensagens recuperadas do celular da estudante, segundo a investigação, revelam uma relação que teria evoluído para um quadro de sofrimento psicológico cada vez mais intenso. Isabelle teria relatado sentir-se ameaçada, manipulada, pressionada, sobrecarregada e presa, além de afirmar que determinadas atitudes do namorado estavam lhe fazendo mal e contribuindo para seu adoecimento.

Celular revela sequência de conflitos

A perícia conseguiu recuperar dados do aparelho da vítima até aproximadamente 2 horas da madrugada de 13 de setembro. Parte do conteúdo não pôde ser extraída integralmente em razão dos danos sofridos pelo celular.

Com isso, permanece uma lacuna entre esse horário e aproximadamente 20h40, quando ocorreu a morte da estudante. A investigação considera esse intervalo relevante para esclarecer os acontecimentos das últimas horas de vida de Isabelle.

Segundo o inquérito, o conteúdo recuperado não aponta apenas para episódios isolados de discussão. A interpretação dos investigadores é de que existia uma sequência progressiva de conflitos e manifestações de sofrimento, acompanhada por relatos relacionados a vigilância e controle.

A apuração busca esclarecer se esse contexto teria contribuído para o agravamento do estado emocional da estudante e, principalmente, se João teria praticado algum ato destinado a criar ou reforçar uma intenção suicida, ou ainda prestado algum tipo de auxílio material.

Testemunha relata áudio de 16 minutos

Um dos depoimentos reunidos pela investigação chama atenção para as horas que antecederam a morte.

Segundo uma testemunha, aproximadamente duas horas antes de Isabelle morrer, a estudante enviou um áudio com cerca de 16 minutos. No relato, ela teria contado que havia discutido com o namorado e afirmado que estaria sendo ameaçada por ele.

Ainda de acordo com o depoimento, Isabelle teria dito que, caso alguma coisa acontecesse com ela, o namorado deveria ser responsabilizado e pediu que o áudio fosse entregue à polícia por um primo.

Outro depoimento descreve uma situação ocorrida cerca de uma semana antes da morte. A testemunha afirmou que Isabelle teria feito uma ligação dizendo que não suportava mais o relacionamento, mencionando ciúmes excessivos e afirmando que sequer teria liberdade para se relacionar com colegas de trabalho.

Durante essa ligação, segundo a mesma testemunha, a voz de João teria sido ouvida ao fundo determinando que o telefone fosse desligado:

“Desliga esse telefone, estou mandando.”

A estudante também teria mencionado a intenção de denunciar o namorado à Justiça do Trabalho e deixado um alerta sobre o que poderia acontecer com ela. Segundo o depoimento, Isabelle teria dito: “Não acredite nele.”

Câmera instalada na porta do apartamento

Outro elemento considerado pela investigação é a existência de uma câmera particular instalada por João na entrada do apartamento.

Conforme consta no material investigativo, o equipamento ficava na soleira da porta de entrada do imóvel. A câmera, entretanto, foi retirada posteriormente, e não foi possível determinar com precisão em que momento isso ocorreu.

Para os investigadores, a existência do equipamento é relevante dentro da apuração sobre o suposto sistema de vigilância ao qual Isabelle estaria submetida.

Saída durante a madrugada chama atenção da investigação

O comportamento de João e da mãe após a morte da estudante também aparece entre os pontos analisados no inquérito.

Segundo a investigação, aproximadamente cinco horas depois da queda de Isabelle, por volta de 1h30 da madrugada de 14 de setembro, João e a mãe teriam deixado o apartamento levando malas, com auxílio de uma terceira pessoa.

A apuração aponta, ainda, que os dois teriam iniciado providências para colocar o imóvel à venda e deixar a residência rapidamente.

Esse comportamento é citado na fundamentação apresentada para a prisão preventiva como um dos elementos relacionados à necessidade de preservar a instrução criminal. A investigação considera necessário esclarecer por que a família deixou o imóvel durante a madrugada e quais providências foram tomadas nas horas seguintes à morte.

Também é apontado que João e familiares não teriam comparecido inicialmente à delegacia para prestar esclarecimentos sobre os fatos.

Investigação busca definir responsabilidade

Apesar dos elementos reunidos, a investigação ainda precisa esclarecer a dinâmica exata da morte e a participação de cada pessoa eventualmente envolvida.

A linha investigativa relacionada ao possível induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio parte, segundo o inquérito, da combinação entre o conteúdo recuperado do celular, os depoimentos testemunhais, o histórico de conflitos e o agravamento do sofrimento emocional atribuído à vítima.

A proximidade temporal entre os relatos de sofrimento, a manifestação de que Isabelle queria “sumir”, a elaboração de uma mensagem de despedida e a morte também é considerada pela investigação.

O ponto central agora é determinar se houve uma decisão autônoma da estudante ou se alguém teria praticado atos capazes de induzir, instigar ou auxiliar a decisão que culminou na morte.

João Munhoz Neto nega envolvimento na morte da estudante. A defesa sustenta que a hipótese de suicídio ou queda acidental não pode ser descartada e contesta as suspeitas levantadas durante a investigação. A apuração policial permanece em andamento.

O caso ganhou novos contornos nos últimos dias. João foi preso preventivamente nesta terça-feira (22), segundo informações divulgadas nesta data, enquanto a Polícia Civil continua reunindo depoimentos e provas para esclarecer as circunstâncias da morte.

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