Cariri registra mais de 9 mil crianças sem o nome do pai em dez anos
Mais de 60% dos registros no Crajubar em 2026 não têm filiação paterna
Foto: Marcello Casal Jr - Agência Brasil
Joaquim Júnior
09/06/26 8:30

Entre 1º de janeiro de 2016 e o dia 3 de maio de 2026, foram registrados 151.168 nascimentos na região do Cariri. No período, 9.404 crianças foram registradas com pais ausentes, o que representa 6,22% do total. Já nos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, entre os dias 1º de janeiro e o início de junho de 2026, foram contabilizados 373 nascimentos, dos quais 233 (62,4%) ocorreram sem filiação paterna, segundo dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil).

Diante desse cenário, o Crajubar participa da quinta edição do mutirão Meu Pai Tem Nome, promovido pela Defensoria Pública do Estado do Ceará, que oferece gratuitamente serviços de reconhecimento e investigação de paternidade. As inscrições seguem abertas até 17 de julho. No ano passado, das 220 pessoas inscritas, 26,8% foram dos municípios do Crajubar.

Para a psicanalista Macedônia Felix, que também atua como ativista na Frente de Mulheres do Cariri, a paternidade vai além do vínculo biológico e deve ser compreendida como uma função exercida na relação com a criança. Segundo ela, essa função está relacionada à construção de afeto, cuidado e limite.

“A presença de um pai não garante afeto. Pelo contrário, alguns pais ocupam um lugar traumático para a criança. Isso também indica que a função paterna necessita de condições essenciais para ser exercida”, relata, ao dizer que o reconhecimento de um filho não é um processo garantido pela biologia. “Não basta ser pai, é preciso tornar-se um”, afirma.

Ao comentar sobre os números de crianças registradas sem o reconhecimento paterno, Macedônia avalia que o cenário está relacionado a estruturas sociais que ainda naturalizam o abandono do pai e sobrecarregam as mulheres pelos cuidados e pela criação dos filhos. “As estruturas das relações sociais machistas responsabilizam a mulher até por sua morte. Consequentemente, a mãe não escapa dessa sina. A quantidade de crianças registradas sem o nome do pai, nos últimos anos, indica o quanto o abandono da mulher e da criança é ainda frequente e aceitável. Até mesmo quando se questiona porque um método anticonceptivo não foi usado, a mulher é a única responsável, mesmo que tenham sido duas pessoas a praticar a relação sexual”, pontua.

A psicanalista também aponta falhas na educação. “Quanto menos se fala e estuda sobre corpo, cuidado, sexualidade, mais se facilita para o abuso sexual infantil, a objetificação da mulher e abandono paterno”, conta, ao dizer que responsabilidade também se aprende. “Mais uma vez, voltamos à educação como via capaz de produzir mudanças nas pessoas. Educação, desde a infância, como possibilidade de se aprender sobre outras formas de se relacionar, ser e estar no mundo. Quem é pai e mãe têm esse grande desafio à frente: ensinar e transmitir uma masculinidade capaz de se responsabilizar”, conclui Macedônia.

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