Formação profissional abre caminhos para novos começos no Cariri
Kyra, Heloísa e Elba encontraram na formação uma chance de mudar de vida
Fotos: Jornal do Cariri/ Divulgação
Joaquim Júnior
20/10/26 8:30

Após ser retirada do convívio com a avó ainda na infância, Kyra D’Paula viveu anos em um abrigo na cidade de Fortaleza. Na adolescência, viveu um relacionamento com um homem mais velho e, posteriormente, decidiu tentar a vida em São Paulo. Por dez anos, ela viveu longe do Ceará, enquanto buscava oportunidades para construir a vida que desejava. Contudo, o que imaginava para si foi ficando cada vez mais distante e, aos poucos, ela também foi se distanciando de quem era e daquilo em que acreditava. Vieram o álcool, as drogas, a prostituição e o afastamento da família e dos amigos.

A vontade de voltar e se tornar a pessoa que sonhava, porém, nunca desapareceu. O ponto de virada foi a pandemia de covid-19 e o retorno para o Cariri, terra natal de sua mãe, onde ela começou a pôr em prática tudo aquilo que guardava consigo e desejava em seu coração. Em terras caririenses, Kyra continuou trabalhando na noite por cerca de dois anos, enquanto desejava e sonhava em reconstruir a própria vida. Nesse período, ela encontrou a Casa da Diversidade, em Juazeiro do Norte, organização que atende a população LGBTQIA+ e oferece acompanhamento multiprofissional. Foi ali que ela, uma mulher trans que sempre acreditou no próprio potencial, recebeu orientação para buscar uma nova profissão e chegou ao Senac.  Com a oportunidade de uma bolsa para o curso técnico em Estética, Kyra não hesitou e agarrou a chance que surgia à sua frente.

E ela não parou mais. Em seguida, vieram outros cursos, como manicure, pedicure, cabeleireira, designer de sobrancelhas, maquiadora, depiladora, massagista e colorimetrista. Na trajetória, o apoio da família e o suporte do atual companheiro foram primordiais para ela deixar a prostituição e investir ainda mais em seus sonhos. Hoje, aos 34 anos, a rotina dela é intensa: atende clientes em um centro de saúde, beleza e bem-estar localizado na cidade do Crato, continua a se profissionalizar em novos cursos e, periodicamente, ensina e passa adiante o conhecimento que possui como professora no Projeto Virando o Jogo, iniciativa do Governo do Ceará voltada a jovens em vulnerabilidade social.

Foto: Jornal do Cariri

“Sou um pouco de tudo dentro dessa pluralidade que é o bem-estar que a gente oferece às pessoas”, conta, ao dizer que enaltece aquilo que elas têm de bom: a sua beleza natural. Ela diz que a prova de sua formação está na rotina que tem construído dia após dia. “O que eu vivo hoje é tudo o que um dia eu sonhei. O certificado é para comprovar aquilo que eu fiz, que eu vejo todos os dias no meu cotidiano, no ensinar o que eu aprendi, no que eu atendo aos meus clientes e no que eu ainda quero aprender”, conta, ao dizer sentir gratidão pela transformação em sua vida e pelo acolhimento que recebeu em sua formação durante os cursos.

“Eu vou dar o meu melhor agora, para as minhas alunas e minhas clientes, e estudando muito. Na hora certa, eu vou estar pronta, preparada para receber tudo aquilo”, afirma. Como ela acredita, todo mundo nasce com um dom e deve buscá-lo, acreditando em si e investindo naquilo que traga alegria. Entre os sonhos que ela possui, está o de abrir o próprio negócio. “Um dia eu estive num lado obscuro. E todos os dias eu falava: eu quero, eu posso, eu vou conseguir”, relembra Kyra, ao concluir: “Todos os dias eu aprendo. Todos os dias é uma cura. Todos os dias é uma construção.”

Senac entra em cena

A história de Kyra representa uma das portas de entrada para a formação profissional. Segundo Cristiano Saraiva, gerente do Senac Cariri, que na região possui sedes em Juazeiro do Norte e Crato, a instituição atende tanto quem busca o primeiro emprego quanto quem pretende retornar ao mercado, empreender ou se aperfeiçoar na profissão. Para ele, a educação profissional ocupa um espaço importante para quem não consegue ou não pretende seguir pelo ensino superior. O aluno pode encontrar no aprendizado de um ofício uma maneira de entrar no mercado, desenvolver habilidades e construir uma fonte de renda.

Foto: Senac

Como ele avalia, o mercado da região é pujante e tem no comércio e nos serviços alguns dos segmentos mais representativos. Segundo o gerente, mesmo que o profissional seja qualificado, é preciso manter-se requalificado e aperfeiçoado, porque as técnicas mudam muito. “O aperfeiçoamento é essencial, pois hoje, com a evolução tecnológica e de produtos, existe a necessidade do profissional estar retornando ao cenário para aprender novas tecnologias. É uma aprendizagem contínua”, explica Cristiano, ao dizer que, no Senac, a disponibilidade de cursos varia desde aqueles com carga horária de 40 horas, qualificação de 160 horas, aprendizagem de 600 horas e até curso técnico com mais de 1.000 horas de duração.

Atualmente, a principal faixa etária dos estudantes varia entre 18 e 40 anos, mas o público é ainda mais amplo e inclui de adolescentes do Menor Aprendiz a pessoas com idade mais avançada. Há quem busque o primeiro emprego, procure uma segunda carreira ou ainda a chance de transformar uma habilidade em negócio que possibilite a autonomia financeira.

A vida pode ser mais doce

Ainda na escola, Heloísa Helena já tinha um lado empreendedor: ela produzia e vendia docinhos para os colegas. Foi o gosto pela cozinha, inclusive, que a motivou a fazer um curso rápido relacionado a bolos no Senac. Depois disso, ela começou a fazer o produto, despretensiosamente, para a família e algumas amigas. Prestes a concluir o ensino médio, ela se viu entre aquilo que desejava cursar e o que as pessoas diziam ser o melhor para “ganhar dinheiro”.

Foto: Arquivo pessoal

Com o apoio da família, ela seguiu o coração e ingressou como tecnóloga no curso de Gastronomia. Já graduada, ela retornou ao Senac, onde deu os primeiros passos na formação profissional, e fez o curso para confeiteira. Foi lá que ela conheceu as Competições Senac de Educação Profissional e trilhou um caminho que mudou a sua vida.

As competições contemplam diferentes modalidades e são realizadas por etapas, como as estaduais, regionais, nacional e até internacional.  Após conquistar o primeiro lugar para representar a região do Cariri, Heloísa Helena iniciou a preparação para a etapa regional, em Fortaleza. Ao ficar novamente na primeira colocação, a jovem se mudou para uma temporada de seis meses na capital cearense. No período, ela diz ter passado por uma grande evolução profissional, graças ao treinamento mais intenso enquanto se preparava para a etapa nacional, no Rio de Janeiro.

Na capital carioca, Heloísa enfrentou três dias de prova junto a candidatos de todo o Brasil e recebeu uma medalha de excelência. Os cortes eram medidos na régua, o tempo era cronometrado e cada etapa da prova exigia técnica e capacidade de resolver problemas sob pressão. “Minha colocação na competição foi o sexto lugar. Mas eu sempre falo que, para mim, o caminho valeu muito mais do que a medalha no final, porque tudo o que eu aprendi, medalha nenhuma tira”, conta.

Empreendedora, Heloísa segue na produção de bolos em casa, enquanto concilia a ocupação no Senac, onde atua como assistente pedagógica de Gastronomia. O sonho, agora, é dar continuidade nos trabalhos e, no futuro, ter um espaço onde seja possível receber seus clientes para que se deliciem com seus produtos. Ser instrutora no Senac e ajudar a mudar vidas, assim como a dela foi mudada, também faz parte dos planos.

Histórias como a de Heloísa também aparecem nos números de formalização dos pequenos negócios. Entre os meses de janeiro e julho de 2026, a região do Cariri registrou a abertura de 7.767 novas empresas. Do total, 5.514 foram formalizadas como Microempreendedores Individuais (MEIs). O setor de Serviços concentrou 4.942 novos negócios. Os dados são da Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec).

Os números, como avalia Eduardo Jereissati, presidente da Jucec, mostram que o empreendedorismo continua avançando na região caririense. A liderança no setor de serviços, segundo Eduardo, reflete uma economia regional fortemente apoiada em atividades como saúde, educação, turismo, serviços empresariais e atendimento à população de toda essa área de influência.

Uma profissão depois dos 40

Após um período acompanhando o tratamento da mãe em um hospital, Maria Elba de Oliveira começou a enxergar a área da saúde de forma diferente. Vendedora há mais de dez anos, abraçou com coragem a vontade de mudar de profissão. “Eu achava a saúde algo muito complexo, que não dava certo pra mim, mas no fim me encantei”, afirma. Foi no Senac, onde antes tinha passado pelos cursos de corte e costura e patchwork, que ela deu o pontapé inicial no mundo da enfermagem. A seleção contou com 358 pessoas para 20 vagas. Elba conseguiu uma delas.

Foto: Arquivo pessoal

Quando começou o curso técnico na área, Elba era a mais velha da turma e até da professora. Mas a idade não foi um empecilho. Pelo contrário, prometeu a si mesma que alcançaria o objetivo que queria. E assim o fez. Hoje, prestes a completar uma década de dedicação à área que mudou os rumos de sua vida, ela trabalha na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Maternidade São Vicente de Paulo, em Barbalha.

Cerca de cinco meses após concluir o curso, Elba arrumou o primeiro emprego na enfermagem. Aos 42 anos. Na busca pela vaga, enquanto seus concorrentes contavam com ampla experiência, tinha consigo o conhecimento adquirido, a capacidade pessoal e profissional e a vontade de fazer a diferença. Deu certo. No caminho, diz ter passado por muitos momentos desafiadores, como a pandemia de covid-19, que ela, assim como profissionais de saúde do Brasil e do mundo, enfrentou com coragem e acolhimento aos pacientes.

“Hoje eu me sinto outra pessoa. E a vivência dentro dessa área da saúde amadurece muito mais. Hoje eu posso lhe dizer que eu sou muito mais feliz. Eu gostava do que eu fazia antes no meu trabalho, profissionalmente. Mas hoje eu lhe digo com certeza, que eu sou muito mais feliz e bem e muito realizada”, relata a técnica em enfermagem, ao deixar um conselho para quem busca se profissionalizar em alguma área: “Se você tem vontade, as empresas estão oferecendo oportunidade. Agora, você tem que buscar, ter coragem. Cabe a você correr atrás e dizer ‘eu quero’. O Senac está de portas abertas.”

Elba, assim como Kyra e Heloísa, encontrou na instituição uma possibilidade de mudança. Com histórias e caminhos diferentes, elas são três entre tantas pessoas que passaram pelo Senac Cariri em busca de uma qualificação profissional. Uma buscava reconstruir a própria vida; outra transformou o gosto pela cozinha em profissão; enquanto a terceira descobriu, depois dos 40 anos, que ainda era possível começar uma nova carreira. Elas mostram que uma oportunidade pode significar um recomeço, uma profissão ou a possibilidade de construir um novo caminho.

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