Operação contra lavagem de dinheiro do PCC acende alerta sobre contratos do BNB
24/09/26 22:14

Entrepay administrou maquininhas do Banco do Nordeste; empresa ligada à licitação do Crediamigo também aparece sob suspeita. Paulo Câmara precisa prestar esclarecimentos

A nova fase da Operação Carbono Oculto, denominada Crédito Oculto, colocou o Banco do Nordeste diante de questionamentos graves, sobre empresas que mantiveram ou buscaram manter negócios com a instituição.

A investigação apura um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro envolvendo empresas do setor de combustíveis, fintechs, fundos de investimento e instituições financeiras. Segundo a Receita Federal, existem indícios de ocultação patrimonial e dissimulação da origem de recursos empregados na aquisição de uma distribuidora de combustíveis.

Dois episódios precisam ser explicados pela direção do BNB. O primeiro envolve a Entrepay, empresa do Grupo Entre, que administrou as maquininhas utilizadas pelo Banco do Nordeste. O controlador do grupo, Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, foi alvo da Operação Crédito Oculto.

De acordo com a investigação, a Entre Investimentos transferiu R$ 20 milhões para a Usina Itajobi, considerada pelos investigadores uma possível “conta de passagem”. O dinheiro foi posteriormente direcionado ao fundo Radford, utilizado numa estrutura financeira que teria servido para ocultar os verdadeiros interessados na compra de uma distribuidora de combustíveis.

O Ministério Público afirma que Freixo, por intermédio das empresas do Grupo Entre, mantinha ampla relação jurídica com companhias pertencentes à organização investigada PCC. A defesa do empresário não se manifestou sobre as acusações divulgadas até agora.

Mineiro também é personagem central nas investigações sobre o Banco Master. Em delação premiada homologada pelo Supremo Tribunal Federal(STF), afirmou ter transferido mais de US$ 12 milhões — cerca de R$ 61 milhões — para um fundo nos Estados Unidos usado no financiamento de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo o delator, os repasses foram determinados por Daniel Vorcaro, depois de cobranças feitas por Flávio Bolsonaro.

Esse histórico torna inevitável uma pergunta: quais controles de integridade, origem de recursos e antecedentes empresariais foram aplicados pelo BNB antes e durante sua relação com a Entrepay? A Entrepay deu um golpe em pequenos comerciantes no valor que supera os R$30 milhões. Não há previsão, até agora, para o BNB pagar esse rombo.

A sociedade nordestina também precisa saber quem patrocinou internamente a contratação da empresa Entrepay, quem defendeu a sua permanência à frente das maquininhas e quais providências foram adotadas depois dos prejuízos denunciados por comerciantes.

O segundo caso envolve a licitação destinada à operacionalização do Crediamigo, maior programa de microcrédito produtivo da América Latina.

A empresa HERC Locação de Mão de Obra foi habilitada no certame com base, entre outros documentos, em um atestado de capacidade técnica apresentado pela Harmos. A ligação torna-se relevante porque a Harmos e seus responsáveis foram associados, em reportagens e documentos apresentados sobre o processo, a investigações relacionadas à Operação Carbono Oculto, por ligação com PCC.

Isso não significa, por si só, que a HERC ou o BNB tenham participado de atividades criminosas. Significa, porém, que a direção do banco precisa esclarecer publicamente a validade, a origem e a consistência do atestado usado para habilitar a empresa em uma contratação bilionária.

O BNB deve informar se realizou diligências independentes sobre a Harmos, se verificou a efetiva prestação dos serviços declarados e se reavaliará a habilitação da HERC diante dos fatos revelados pelas investigações.

Não há, até o momento, prova pública de que o PCC tenha atuado diretamente dentro do Banco do Nordeste. O que existe é uma sucessão de conexões empresariais preocupantes: uma companhia que operou as maquininhas do banco pertence a um investigado por suposta lavagem de dinheiro; e uma empresa envolvida na licitação do Crediamigo apresentou atestado emitido por outra companhia citada no contexto dessas apurações.

São fatos suficientemente graves para exigir transparência absoluta. O presidente do BNB, Paulo Câmara, precisa explicar qual era sua relação institucional, política ou pessoal com Antonio Carlos Freixo Júnior; como a Entrepay chegou ao banco; quem sustentou sua contratação; quais prejuízos ficaram para os comerciantes; e que providências serão tomadas no processo do Crediamigo.

Também deve esclarecer a participação da Entrepay no financiamento do time de vôlei Norde Vôlei, com patrocínio da Entrepay, numa articulação do BNB anunciada pelo próprio Paulo Câmara, em suas redes sociais.

Paulo Câmara aproxima-se do fim do mandato deixando interrogações que podem comprometer a reputação da instituição financeira mais importante do Nordeste.

Silêncio, neste momento, não protege o Banco do Nordeste. Ao contrário: amplia as suspeitas. O BNB, a Entrepay, a HERC, a Harmos e os demais citados devem ser não apresentaram suas versões. O espaço continua aberto para todos os esclarecimentos.

Mas as perguntas estão postas — e Paulo Câmara não pode continuar calado.

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