Crise no STF e violência mudam eixo da corrida ao governo do Ceará
16/09/26 22:04

A eleição cearense entrou definitivamente na rota da disputa presidencial. A visita de Flávio Bolsonaro a Juazeiro do Norte, nesta quarta (16), não foi apenas uma agenda de campanha no Cariri. Foi uma tentativa de transportar para o Ceará a guerra nacional entre bolsonarismo e petismo.

Flávio Bolsonaro escolheu atacar justamente no ponto em que Lula está mais vulnerável: a crise sem fim no Supremo Tribunal Federal(STF). Em Juazeiro, afirmou que votar em Lula significa entregar mais poder a Alexandre de Moraes e aos ministros indicados pelo presidente. Foi além: prometeu mudar a composição do STF caso seja eleito. Só esqueceu de dizer que indicado por seu pai, ministro Cássio Nunes Marques está também enrolado com Daniel Vorcaro, que pagou um programa com uma prostituta, no valor de R$10 mil, em São Paulo.

Lula reagiu tentando devolver ao adversário o desgaste do escândalo do Banco Master. Disse que seu governo colocou na cadeia Daniel Vorcaro, apresentado pelo petista como “banqueiro da família Bolsonaro”, numa referência a aprovação e criação do Banco Master no governo de Jair Bolsonaro além das suspeitas envolvendo recursos - R$53 milhões - destinados à produção de um filme sobre Jair Bolsonaro. Está definido o novo campo de batalha: Lula tenta colar Flávio em Vorcaro; Flávio tenta colar Lula em Alexandre de Moraes. O problema para o presidente é que a crise do STF continua produzindo novos capítulos. O julgamento sobre a possível investigação de Moraes terminou suspenso após pedido de vista de Flávio Dino. A Corte permanece dividida, e cada adiamento alimenta o discurso de que o Supremo estaria protegendo os próprios integrantes.

No Ceará, essa disputa nacional terá impacto direto sobre a batalha pelo Governo do Estado. Elmano de Freitas depende da força eleitoral de Lula para mobilizar o eleitorado petista e eliminar a vantagem de Ciro Gomes. Já Ciro concentra grande parte do voto antipetista e pode ser beneficiado pelo crescimento de Flávio, mesmo sem transformar a campanha estadual numa simples extensão do bolsonarismo.

A presença de Flávio Bolsonaro em Juazeiro do Norte também tem forte simbolismo. O Cariri é uma região decisiva, tradicionalmente favorável ao lulismo, mas onde a oposição tenta abrir uma brecha. Se Flávio crescer no interior, ele poderá puxar votos para candidatos estaduais contrários ao Palácio da Abolição.Ao mesmo tempo, o ataque a tiros contra a Casa do Povo, escritório político do primeiro vice-presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, Adail Júnior, coloca a violência no centro da campanha. A polícia ainda precisa esclarecer a autoria e a motivação dos disparos. Qualquer relação com facção criminosa deve ser tratada como hipótese investigativa, não como fato consumado. Politicamente, porém, o episódio já produz consequências. A oposição usará o ataque para reforçar a narrativa de perda de controle da segurança pública. Elmano será pressionado a apresentar uma resposta rápida, esclarecer o crime e demonstrar que agentes políticos não estão submetidos ao poder das organizações criminosas. A campanha cearense, portanto, passa a ser disputada em três frentes: o peso de Lula, a expansão de Flávio Bolsonaro no Nordeste e o medo provocado pela violência. Lula precisa impedir que a crise do STF contamine Elmano. Flávio quer transformar Alexandre de Moraes no maior cabo eleitoral da oposição. Ciro tenta capturar o voto de quem rejeita simultaneamente o PT, o Governo do Ceará e o sistema político de Brasília. A eleição deixou de ser apenas uma comparação entre as administrações de Elmano e Ciro. Agora, o eleitor cearense será chamado a escolher também de que lado ficará na guerra nacional. E, numa campanha dominada por denúncias, crise institucional e violência política, quem conseguir transformar indignação em voto poderá conquistar o Ceará.

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