Pesquisadores alertam para impactos dos lixões em cenário de El Niño
Estiagem pode intensificar efeitos da disposição irregular de resíduos
Foto: Reprodução
Jornal do Cariri
03/08/26 15:24

Pesquisadores da Universidade Federal do Cariri (UFCA) e do Instituto Federal do Ceará (IFCE) apontam que a falta de aterros sanitários pode potencializar efeitos tóxicos do lixo e emissão de gases poluentes, caso um episódio de El Niño de forte intensidade se confirme nos próximos meses.

Dados do último relatório do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Sinisa), publicado em dezembro de 2025, apontam que dos 29 municípios que compõem a região do Cariri, 20 ainda utilizam lixões, enquanto apenas dois contam com a estrutura adequada de aterros sanitários. Das nove cidades da Região Metropolitana do Cariri (RMC), sete ainda fazem o descarte irregular em lixões, enquanto apenas uma utiliza aterro.

Com um El Niño de maior intensidade, o Cariri pode apresentar precipitações abaixo da média, períodos longos sem chuva e temperaturas elevadas. “Essas condições afetam diretamente a disponibilidade hídrica para abastecimento humano. Com a seca prolongada, há uma redução significativa na recarga dos aquíferos, pois menos água alcança o subsolo. Ao mesmo tempo, a demanda por água subterrânea aumenta, já que poços passam a ser mais utilizados”, afirma a professora Celme Torres, pesquisadora da Universidade Federal do Cariri (UFCA).

Devido à dependência das águas subterrâneas, os pesquisadores apontam que a falta de infraestrutura sanitária se torna uma crise iminente. A professora Amanda Pino, engenheira e pesquisadora da UFCA, alerta para a letalidade gerada pela decomposição do lixo irregular durante a estiagem, com a liberação do lixiviado, conhecido popularmente como chorume. “Se eu não faço um direcionamento para o aterro sanitário, ele infiltra no solo. É uma infiltração no solo de metal pesado, matéria orgânica, matéria inorgânica, nitrogênio, amônia, diversos compostos que são extremamente nocivos, tanto à saúde pública quanto ao meio ambiente. Inclusive, a maior parte desses compostos não são removidos pelos processos convencionais de tratamento de água”, comenta.

De acordo com o professor Germário Araújo, coordenador do curso de Engenharia Ambiental do IFCE - Campus Juazeiro do Norte, a combinação de lixões com o clima extremo é uma fórmula desastrosa. “Temperaturas mais elevadas, nessa cadeia ambiental, podem desencadear outros problemas sistêmicos. Com uma maior evaporação, temos um maior metabolismo dos microrganismos. Então, em lixões, essa decomposição vai ser muito maior, liberando mais biogás, mais metano, que é gás de efeito estufa.”

Por sua vez, Ingrid Botelho, gerente da Regenera Cariri, enfatiza que a destinação correta dos resíduos sólidos é uma medida de sobrevivência e adaptação climática. “O El Niño reflete anos de descaso com o meio ambiente, e nos impõe o desafio de mudar a rota”, afirma, destacando a necessidade de os municípios entenderem que investir na gestão de resíduos é investir na proteção imediata das suas águas e na saúde da população.

O que diz a Funceme

Francisco Vasconcelos, diretor técnico da (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), explica que o El Niño é um fenômeno natural que ocorre no Oceano Pacífico. Ele se manifesta quando as temperaturas das águas superficiais que passam por central e leste se tornam mais quente que a média em longo prazo, e essas condições se prolongam por vários meses, o que causa efeito em toda atmosfera do globo.

De maneira geral, os possíveis e principais impactos do El Niño são a diminuição da precipitação durante a estação chuvosa e o aumento na temperatura do ar. “Isso é algo que já foi observado em outros eventos, como nos anos de 1983, 1998 e 2016”, explica o diretor. Esses possíveis impactos podem ser sentidos pelos moradores, principalmente nas temperaturas. É possível que, durante os meses de setembro e dezembro, haja o aumento da temperatura acima do valor médio do período.

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