Cariri lidera iniciativa inédita de formação antirracista no Brasil
Pioneirismo local fortalece a luta por equidade racial
Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil
Joaquim Júnior
01/06/26 16:52

O Cariri é a primeira região do Brasil a receber um Centro de Referência em Formação Continuada para Equidade Racial, projeto-piloto do Ministério da Educação (MEC) voltado à formação de educadores para práticas pedagógicas antirracistas. A iniciativa é financiada pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi/MEC) e vinculada à Universidade Federal do Cariri (UFCA), instituição proponente e executora do projeto.

O equipamento é coordenado pela professora Ana Paula dos Santos, do Instituto de Formação de Educadores (IFE/UFCA) e atual coordenadora de formação no Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec). Além da UFCA, também integram as atividades o próprio Grunec e seus três núcleos (Terreiro das Pretas, Projeto Oliveiras e EducaErê). As secretarias municipais de Educação de Crato, Brejo Santo, Santana do Cariri, Araripe e Salitre também participaram da articulação.

As ações de 2026 serão concentradas nestes municípios, podendo chegar a mais lugares no decorrer dos anos. Elas serão desenvolvidas através de seis eixos temáticos estratégicos: Letramento e Círculo de Memória; Formação de Professores da Educação Infantil: Letramento Racial na Infância; Linguagens, Audiovisual e Fotografia no Ensino Fundamental; Saberes Tradicionais com Jogos Africanos; AfroturismEducativo e Construção Sustentável Comunitária.

Segundo Ana Paula, o Centro nasce com a proposta de estabelecer um marco referencial de equidade racial na educação carienciense, reunindo princípios, metodologias e caminhos para políticas de formação continuada que possam orientar outros territórios do país. Para ela, a escolha do Cariri como território-piloto resulta da convergência de fatores estratégicos: a atuação da UFCA na promoção da equidade racial, a trajetória histórica do Grunec na valorização negra no território e a existência de redes municipais de educação dispostas a transformar suas práticas pedagógicas.

“O Cariri apresenta um contexto territorial, com comunidades quilombolas, memória afro-brasileira viva e potencial para articular universidade, movimentos sociais e gestão pública em torno de um objetivo comum. Essa combinação de fatores acadêmicos, sociais e institucionais fez da região um ambiente propício para um projeto-piloto que precisa ser rigorosamente documentado e avaliado”, completa.

Movimento negro

Ana Paula ressalta que iniciativas como o Centro representam a materialização institucional de décadas de luta do movimento negro no Brasil, Ceará e especialmente no Cariri. Historicamente, esses movimentos reivindicam a implementação efetiva da Lei 10.639/03, que tornou obrigado o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas.

Segundo ela, o Centro pretende oferecer metodologias, acompanhamento e caminhos concretos para que a equidade racial saia do papel e chegue à sala de aula. A proposta também é criar referências que inspirem políticas semelhantes em outras regiões brasileiras.

“A equidade racial se constrói através de políticas públicas concretas com formação continuada, mas também com compromisso cotidiano. Cada gesto de valorização das comunidades quilombolas, cada conversa sobre racismo em casa, cada cobrança por políticas públicas antirracistas contribui para a transformação que buscamos. O Centro é uma ferramenta poderosa, mas a mudança depende de toda a sociedade”, enfatiza Ana Paula.

O Grunec, reconhecido pela atuação histórica na valorização da população negra no Cariri, avalia a criação do Centro como uma conquista coletiva e um reconhecimento da luta antirracista no território. A iniciativa representa, então, a possibilidade de transformar a sala de aula em um espaço de promoção da equidade racial, impactando diretamente a aprendizagem de crianças, jovens e adultos.

Educação antirracista

De acordo com Ana Paula, os maiores desafios para implementar uma educação antirracista nas escolas são estruturais e culturais. Entre eles, estão a formação inicial insuficiente dos educadores em relações étnico-raciais; a permanência do racismo estrutural; a falta de materiais didáticos representativos; e a resistência, muitas vezes velada , em reconhecer o racismo como problema que atravessa o cotidiano escolar. Há também o desafio da descontinuidade, em que a alternância de governos pode fragilizar iniciativas em curso.

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