Entre fé e resistência: o papel dos terreiros de Umbanda no Cariri
Os ataques nem sempre são físicos
Foto: Reprodução Redes Sociais Aldeia de Jurema Cabocla Jacira
Regy Santos
27/01/26 9:00

A região do Cariri é marcada pela forte presença da religiosidade popular e pela diversidade de manifestações religiosas, entre elas os terreiros de Umbanda. Esses espaços seguem sendo locais de resistência, espiritualidade e preservação cultural, mesmo diante de um histórico contínuo de discriminação e violência.

Se, no passado, a perseguição partia principalmente de autoridades policiais e do próprio Estado, atualmente os ataques têm sido impulsionados, sobretudo, por grupos religiosos fundamentalistas, que difundem discursos de intolerância e preconceito. De acordo com o escritor e babalorixá Sidnei Nogueira, autor da obra Intolerância Religiosa (2020), o racismo religioso não se resume à rejeição de uma fé específica, mas condena sua origem, sua existência e sua relação direta com a ancestralidade negra.

No Cariri, os terreiros permanecem como espaços de acolhimento e fortalecimento comunitário. Para Jessyca Santos, madrinha juremeira e sacerdotisa de Umbanda da Aldeia de Jurema Cabocla Jacira e Mestra Joana-Pé-de-Chita, localizada em Juazeiro do Norte, o papel do terreiro vai muito além da dimensão religiosa. “Hoje, o espaço de terreiro é um território de cuidado, acolhimento, proteção social, cultura e educação comunitária. As pessoas chegam em busca de espiritualidade, mas também de escuta, orientação, apoio emocional, alimento e pertencimento”, afirma.

Segundo a liderança religiosa, os terreiros atuam como verdadeiras redes de proteção social, especialmente para populações historicamente excluídas das políticas públicas, como mulheres, juventudes periféricas, famílias em situação de vulnerabilidade, pessoas negras e indígenas.

Jessyca avalia, de forma cautelosa, a criação de novas ferramentas institucionais voltadas à proteção dos terreiros, como a plataforma lançada pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social. Para ela, o mapeamento representa um avanço simbólico importante. “É um passo de reconhecimento institucional, já que historicamente os povos de terreiro sempre foram invisibilizados pelo Estado ou lembrados apenas em contextos de violência e preconceito”, destaca.

No entanto, a sacerdotisa ressalta que o mapeamento, por si só, não garante proteção efetiva. “A ferramenta só terá sentido se estiver ligada a ações concretas, como políticas públicas de proteção, prevenção, educação antirracista, formação de agentes públicos e respostas rápidas às violências”, pontua.

Na avaliação da liderança religiosa, os ataques aos terreiros na região do Cariri são frequentes, embora nem sempre apareçam oficialmente registrados como casos de intolerância religiosa. “Eles se manifestam de forma estrutural, por meio de ameaças veladas, preconceito institucional, estigmatização, denúncias infundadas, violência verbal e deslegitimação social”, explica.

Muitos episódios deixam de ser denunciados por medo, descrédito nas instituições ou ausência de canais seguros. “Existe uma forte presença de comunidades tradicionais no Cariri, mas também uma cultura conservadora que ainda enxerga os terreiros a partir de estigmas coloniais. Os ataques nem sempre são físicos, mas são constantes, silenciosos e estruturais”, afirma.

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